Islândia

A crise do Capitalismo quando nasce é para todos. E esta mais do que qualquer outra anterior.

A Islândia, o  país modelo do Capitalismo e que ocupa o primeiro lugar na tabela do Índice de Desenvolvimento Humano – o que acontece desde 2005 -, vive por estes dias uma profunda convulsão social, que levou o primeiro-ministro Geir Haarde  e toda a ala-direita do governo da coligação  Partido da Independência/Aliança Social-Democrata a apresentar a demissão das suas funções. A “Esquerda” está agora encarregue de formar um Governo, minoritário, de coligação entre a Aliança Social-Democrata e o Movimento de Esquerda-Verde. Este novo Executivo assumirá funções meramente transitórias, já que foram convocadas eleições para Maio.

Sem muito para contar no que toca a lutas sociais na Islândia (para termos ideia basta dizer que a polícia de choque não usava gás-lacrimogéneo em manifestações há 60 anos) este fenómeno acaba por ser significativo. Um movimento de massas que tem passado quase despercebido nos media forçou o colapso de um governo e com bastante menos violência do que no caso da Grécia, onde pouco ou nada se tem conseguido. Será isto positivo? Sem dúvidas, mas é preciso abordar com cuidado este caso.

Ao deixar o governo entregue a uma coligação de Centro-Esquerda entre Sociais-Democratas e Verdes até às eleições em Maio, a Burguesia aborda uma táctica defensiva. Cede a uma das exigências políticas das massas populares, retira do governo a parte mais exposta ao descontentamento da população e convoca eleições, deixando a “Esquerda” governar até lá. Com isto consegue acalmar o movimento de protesto e ganhar tempo para preparar a futura coligação de Governo, que provavelmente será entre os Sociais-Democratas e o Partido Progressista, da Direita Liberal. Esta é também uma forma de tentar capitalizar para a Direita Conservadora a insatisfação das massas que não parece que vá diminuir, em função do agravamento da crise do Capitalismo internacional.

A Islândia, por ser uma sociedade quase colegial, é um daqueles países que praticamente não tem qualquer organização revolucionária. No actual movimento de luta têm participado grupos de estudantes mais radicalizados e de alguns operários mais esclarecidos, ligados a pequenas organizações Anarquistas ou ao quase inexistente partido Comunista, a trotskista Liga Comunista. Porém estes elementos revolucionários são pouco mais que anexos ao movimento, impulsionado pelas confederações sindicais do país, a ASÍ e a BSRB, cada uma mais amarela que a outra. Perante este panorama pouco animador para a luta revolucionária, parece surpreendente a “vitória” alcançada pelas massas. Contudo, se analisarmos um pouco a tradição da luta de classes nos países Nórdicos, observamos que não é de todo uma surpresa que um Governo se demita após umas quantas manifestações massivas. Na verdade as organizações de massas como os Sindicatos ou os partidos de Esquerda, no Norte da Europa, têm uma história longa de colaboração com a Burguesia, reflexo de uma cultura social marcada pela tolerância e conciliação. Essa cultura reflecte-se naturalmente nos comportamentos da Burguesia que, sem ceder um milímetro quanto aos seus objectivos de classe, parece ceder kilómetros às pretensões do Trabalho.

Se durante várias décadas teríamos que ter tacto ao partir para a crítica a este reformismo descarado por culpa dos resultados menos maus para os trabalhadores que ele ia conseguindo, nos dias de hoje e no futuro poderemos apontar este inegável defeito como causador da degradação das condições de vida da classe trabalhadora Nórdica.

O caso Islandês, porém, não é tão semelhante assim aos outros países Nórdicos, no que toca a políticas económicas. As privatizações e liberalização do mercado neste país chegaram a um ponto muito superior em relação aos Escandinavos, e prova disso é o próprio gatilho da crise económica nacional, que foi a total subordinação dos bancos Islandeses ao Capital Britânico. Este processo de total restauração Capitalista ocorria já há cerca de duas décadas. Ainda assim, a classe operária não soube ver nisso um problema e não se soube armar correctamente para os confrontos que, inevitavelmente, se iriam seguir. Deixando os seus Sindicatos nas mãos de elementos reformistas, os operários Islandeses (que representam mais de 20% da população nacional) hipotecaram-se, chegando agora a esta encruzilhada. A classe operária e todos os trabalhadores Islandeses são reféns da Burguesia e movimentam-se ao sabor das guerras partidárias desta.

Pode objectar-se a isto o alegado facto de que os trabalhadores Nórdicos no geral, e os Islandeses em particular, não têm organizações verdadeiramente representativas dos seus interesses e ambições, organizações revolucionárias Marxistas-Leninistas, porque nunca delas haviam precisado. Aceite-se. Mas contraponha-se com uma questão: como pode a classe operária, classe revolucionária por definição, defender-se a si mesma quando entrega essa função à pequena-burguesia, classe objectivamente inimiga? Não deveria poder mas o facto é que  aconteceu. Interessa agora inverter a situação. Reactivar urgentemente o Partido Comunista, conferir-lhe uma orientação revolucionária e de vanguarda para que se lance no combate, esta é a imediata  tarefa que toca aos operários Islandeses, para que se desliguem de um quadro político totalmente adverso.

A Europa está a viver uma situação nova. Pela primeira vez na sua História recente existem movimentações de massas em praticamente todos os países, movimentações com o mesmo sentido e objectivo. E quando a primeira “vítima política” desta nova situação é o governo de um país quase idílico como a Islândia, é sinal de que alguma coisa está a nascer.

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2 comentários

Filed under capitalismo, igor marques, internacional, lutas sociais

2 responses to “Islândia

  1. Pois, no 1íssimo mundo também se assiste à derrocada do “Estado Social” e das suas instituições financeiras..
    Que conjecturas se arquitectam agora para as massas, sabendo que o Capital se estrebucha e reinventa?

    (btw: Existe site desse tal quase “inexistente” Partido Comunista islândês?)

  2. Igor Marques

    prole, após procura na net a única coisa decente que encontrei foi a página na Wikipédia: http://en.wikipedia.org/wiki/Communist_League_(Iceland)

    Em relação à questão anterior, a resposta dava um livro mas, e tentando sintetizar, parece-me que agora já não restam muito mais alternativas a longo-prazo ao Capital. Mesmo uma inflexão em direcção ao “Estado Social” de modelo Nórdico (que não se encontra já em vigor na Islândia há quase 20 anos) será uma medida a médio-prazo, porque o modo produtivo Capitalista continua em vigor. E foi esse mesmo modo e a sua evolução natural que deram no neo-liberalismo, como alternativa “aceitável” globalmente ao monopolismo monolítico do Fascismo.
    Às massas compete agora impedir quanto possível a reorganização do Capital, que tentará sobreviver através do “Estado Social” por exemplo, e compete acima de tudo encetar uma subversão do sistema, por si próprias.
    Parece-me que os tempos futuros terão que ser obrigatoriamente de agitação.

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