A autoridade atrás do umbigo

De vez em quando aparecem coisas que não se sabe de onde vêem. Se são simples movimentos de cidadãos preocupados ou se são uma ideia partidária para servir como plataforma de recrutamento – que tanto jeito dá nesta época de eleições.

Já tinha recebido e-mails sobre isto, mas depois aparece uma notícia no Esquerda.Net, o que permite ver de que lado vem a coisa. Um movimento contra o facto dos carros, nas cidades, pararem em cima dos passeios destinados aos peões. À primeira vista não parece ter nada de mal, faz todo o sentido que os passeios não tenham carros e que estejam livres para a deslocação de peões, nomeadamente dos que têm dificuldades motoras. Mas depois há a assustadora moralidade e autoridade da gente por detrás do Passeio Livre.

A ideia é apelar ao bom senso dos automobilistas colando um autocolante no vidro dos carros mal estacionados, como faz a Polícia Municipal cá em Lisboa quando bloqueia um carro. Falando em polícia, eles afirmam que a “autoridade” compactua com estes criminosos, e que esta tem é de começar a abrir a pestana. Recomendam que as pessoas denunciem os criminosos automobilistas à Polícia Municipal.

Não falam, por exemplo, da inexistência de locais gratuítos de estacionamento em zonas como a Baixa de Lisboa; ou o fraco investimento nos transportes públicos em geral. Isto já pouco interessa, porque não vale a pena prevenir algo quando se pode chamar a autoridade para resolver o problema.

Deixo, por fim, este magnífico parágrafo do movimento, que explica bem a sua falta de utilidade e o seu desejo de se transformarem numa milícia que faça cumprir a lei (com “L” grande, por favor):

Já repararam que há movimentos a favor e contra o aborto, a favor e contra o casamento entre homossexuais, a favor e contra todas e mais algumas mudanças do que está escrito na Lei? Nisso, somos diferentes – o nosso movimento é pelo puro e simples cumprimento da Lei. E nunca ouvimos quem defendesse a mudança da Lei por cujo cumprimento lutamos – a que proibe o estacionamento em cima dos passeios. Do que se queixam é da cola que a nossa acção deixará nos vidros dos carros que transgridem a Lei. E há alguém que, em sã consciência, duvide que a nossa acção só se faz por ausência de quem é pago e instruído para fazer cumprir a Lei?

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13 comentários

Filed under bloco de esquerda, polícia, youri

13 responses to “A autoridade atrás do umbigo

  1. Ó seu tótó, não percebeste mesmo nada. Então uma acção directa contra a opressão automóvel, de reclamação das ruas para as pessoas, é autoritarismo?

    Uma cadeia que nem se sabe onde começou e que tem todo o tipo de pessoas a participar, a atacar ilegamente! a propriedade privada de quem ocupa com ela o espaço público, é autoritarismo?

    Não percebes que o problema dos automóveis em cima dos passeios tem tudo que ver com a autoridade proteger a propriedade privada dos 30% de população que tem carro em detrimento de quem não tem?

    Não percebes que são o capitalismo e o estado, com a TUA conivência cultural, que provocam a ditadura automóvel, uma praga que fez mais pelas desigualdades sociais e pela alienação do que qualquer medida explicitamente política?

    E tu vens falar mal de um apelo, de um pedido para que as pessoas abram os olhos , se revoltem contra esta merda e tomem alguma acção contra quem os anda a comer por parvos?!?

    O que era preciso era foder os carros todos que estacionam em cima do passeio, furar-lhes os pneus , partir-lhes os vidros, mas aí vinha a autoridade rapidamente protegê-los.

    Quanto à mensagem que citas, sabes porque é que vês mensagens de todo o tipo em nome do “movimento”? Porque toda a gente é considerada parte do movimento. Esse tipo que escreveu o que citas, por exemplo, foi metido no blogue porque queria participar. Cada um com perspectivas diferentes.

    Abre a puta da pestana, estás a ser comido e não fazes nada. Essa tua perspectiva do “epá não há transportes públicos e tal” é que é típica da esquerda social-democrata, do coitadinho do cidadão, da falta de estacionamento , da falta de transportes públicos.

    Se vir o teu bote por aí em cima de algum passeio, levas autocolante e levas faca nos pneus.

    Saúde, anarquia, e pau no cú da burguesia (sim, inclui-te a ti, puto)

    • Ó Tarique, eu sou comunista, não me quero fazer passar por anarquista. O que tu gostas é de furar pneus e dizer merda, força com isso, vais chegar a uma mudança social do caralho com essa tua mentezinha fechada.

      Os “outros” para ti são todos burgueses que têm um carro, o mundo é preto e branco e tu és o senhor que tem o caderninho com o caminho a seguir. Quem se opor às tuas ideias, básicas, leva uma navalhada num pneu.

      Vai lá ressabiar-te com a burguesia, e deixa a prole em paz.

  2. Não falam, por exemplo, da inexistência de locais gratuítos de estacionamento em zonas como a Baixa de Lisboa;

    Vai.
    Levar.
    No.
    Cú!

    Social-democrata ressabiado a querer passar por anarca.
    Querias espaço público ocupado pela propriedade privada dos previligiados que têm carro, e ainda por cima de graça??!?!?!?!!!?
    E quando um carrinho estivesse estacionado nesses tais lugares de estacionamento gratuíto que tu querias para a cidade, se eu fosse lá e furasse os pneus a esse bote que está a ocupar o espaço público, vinha a tua amiga autoridade protegê-lo, não era?

    O que tu estás a pedir é protecção policial-estatal para a propriedade privada que invade e oblitera o espaço público. Libertário o caralho.

  3. Ah, e só mais uma coisa: nesse blogue de que falamos é que repete a palavra autoridade até à exaustão. Um anarquista defender que as autoridades façam cumprir a lei do estacionamento ilegal (que no fundo, é isso que eu acho que está mal nesse blogue, não são os autocolantes, é o apelo às autoridades esquecendo ideias que possam resolver o problema de vez) é que é ridículo.

    O que te move é a destruição de carros, isso sim, é que é a luta.

  4. Joao Melo

    É de facto curioso que um blog de um marxista e um Leninista queira estacionamento gratuito para os automóveis!

    Num país que ainda tem bairros da lata querem subsídios para os automóveis!

    Basta este exemplo para perceber que se pensa pouco por aqui. O resto é igualmente rasteiro.

  5. Alexandre

    Deixo só uma ligação para um vídeo interessante de Barcelona em 1908 e em 2008. Neste é possível perceber a morte das ruas como espaço público. Devido aos automóveis, é quase unânime. Se houver espaços gratuitos para estacionamento na cidade, a rua continua, a mer ver, morta. Espero que o autor deste blog estude um pouco mais e assim possa modificar a sua percepção errónea deste assunto. Está em fotosdebarcelona(ponto)com

    • Isso leva a outra discussão, que eu acho interessante. A cidade é cada vez menos utilizada como um espaço público para todos, que possa ser utilizada de uma forma livre, e os automóveis têm influência nisso. Por outro lado o automóvel é um meio de transporte que existe, e isso não será contrariável de um momento para o outro, e é discutível se tal é desejável.

      O facto de existir estacionamento gratuito não invalida o encerramento de várias zonas da cidade ao trânsito automóvel particular. Não sou nenhum defensor acérrimo da utilização do automóvel, apenas não caio na exigência das autoridades monitorizarem todos os potenciais infractores que andam nesse veículo. A solução deve passar por outras vias, sem autoritarismos nem moralismos.

  6. Alexandre

    Penso que muitos encaram o fecho de ruas ao tráfego automóvel como autoritarismo, pois crêem ser um direito seu inalienável a possibilidade de andarem de carro para onde seja. Também não me revejo no apelo às autoridades para a fiscalização do espaço público, neste caso carros no passeio. Mas impossibilitar o estacionamento caótico que hoje em dia se verifica é um dos primeiros passos a dar para tornar as cidades de novo mais vivenciáveis. Outros possíveis será o fecho de certas ruas, a diminuição do espaço para automóveis particulares e aumento do espaço para transporte público, acalmia de tráfego,… Pode ser feito em sequência ou simultaneamente, por pessoas preocupadas ou pelas “autoridades”. O importante é que seja feito, pois parece-me que já estamos quase todos fartos das cidades sem qualidade de vida que actualmente temos.

  7. mescalero

    Youri Paiva,

    O que mais salta à vista nesse blog e na acção que promove é o alertar para o problema dos automóveis em cima dos passeios e a acção (ilegal) de colar autocolantes como forma de protesto. O apelo à autoridade é perfeitamente secundário. Parece-me que procuraste sobrevalorizar um aspecto que não tem tanta relevância como isso e acabaste por deixar o principal de fora.

    Quanto à ideia sugerida de criar estacionamento gratuito há dois princípios importantes em colisão. Por um lado o da gratuitidade que, na minha opinião, não é de descartar sem mais. Sou contra a tendência de quantificar e monetizar todos os aspectos da nossa vida. Por outro lado, o da libertação do espaço público da quinquilharia horrível e ecologicamente insustentável com que a sociedade de consumo o quer sufocar. Neste caso, os carros.

    Acho que não é preciso abdicar de nenhuma destes dois pontos de vista. O facto do “automóvel [ser] um meio de transporte que existe, e isso não [ser] contrariável de um momento para o outro” é um argumento completamente conformista e, de certa forma, até irrealista. Irrealista por causa da insustentabilidade que é o modelo “uma pessoa, um automóvel”, e irrealista também porque a dificuldade de mudança para formas alternativas de transporte não é técnica mas simplesmente política, isto é, está unicamente depende da vontade política (ou, na melhor das hipóteses, popular).

    cumps

  8. LGF Lizard

    E quando houver carros eléctricos com zero emissões (ou seja, não poluentes), como o caso dos Tesla por exemplo, qual será a desculpa para “proibir” os carros nas grandes cidades?

    Se calhar a razão pela qual existem demasiados carros em Lisboa é a simples falta de transportes públicos eficientes e baratos. Para não falar na segurança….

    Interessante como por exemplo o simples facto de porem o comboio a atravessar a ponte conseguiu tirar carros a Lisboa….

  9. LGF Lizard

    Chamar a atenção é uma boa medida e os autores do tal blog merecem os parabéns. Os autocolantes não sei…. depende de onde forem colados e qual o “estrago” feito ao carro. O caso da navalhada aos pneus, apenas merece que apanhe um tipo mais “valentão” do que ele. E depois aconteça o que acontecer. Não sei porquê, mas não me parece que muito boa gente reaja bem a ver um tipo à navalhada aos pneus do seu carro. E existe sempre um tipo mais “valentão” do que nós. Com o lindo resultado de uma surra garantida. E justa.

  10. stipouff

    Amigo LGF Lizard:

    Só relativamente à tua ideia dos carros eléctricos e do comboio como formas de transporte alternativas sustentáveis:

    Carro eléctrico: este tipo de solução, a única coisa que faz é deslocalizar a poluição das cidades para as zonas de produção da electricidade. Actualmente a maior parte da electricidade em Portugal (e no resto do mundo) é feita pela queima directa de combustíveis fósseis. Ao aumentares o consumo de electricidade aumentas o consumo deste tipo de fonte de energia bastante poluente (e libertador de CO2). Mesmo pensando que parte da electricidade vem de barragens hidroeléctricas, como em Portugal, o problema não está resolvido, já que estas destroem irreversivelmente o ecossistema em que são construídas e têm um tempo de vida curto, ~ 1 século. Por último, mesmo pensando nos carros movidos a hidrogénio, actualmente o H2 comercial é quase todo originário (é um subproduto) do processamento do petróleo.

    Comboios: Os movidos a gasóleo têm os mesmos problemas que os carros normais, os movidos a electricidade têm os mesmos problemas que te acima referi. Têm é a enorme vantagem do factor escala, i.e. transportam muitas mais pessoas por quantidade de energia gasta.

    Fiquem bem

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