Jaiminho, pá.

Amadora, 31 de Julho de 1975. No quartel do regimento de Comandos, tropa de elite do exército Português, um grupo de cerca de duas dezenas de militares de baixa-patente decide, com conhecimento da maioria dos homens do aquartelamento, fazer uma “limpeza” no regimento, infestado de soldados altamente reaccionários e constituindo uma séria ameaça ao caminho que o movimento popular e operário, apoiado por boa parte dos militares, decidira trilhar. Assim, são detidos na Unidade o major Lobato de Faria, Ribeiro da Fonseca, o capitão Falcão e Miquelina Simões, tidos como o núcleo duro da reaccção nos Comandos da Amadora. Porém, faltava a estes o nome mais alto: o Coronel Jaime Neves, um semi-analfabeto e proto-Fascista trauliteiro que era a figura de cartaz do regimento e um dos homens de mão dos “Nove” e de toda a direita, o elo que segurava os temíveis Comandos no lado anti-operário, à custa de proibições aos homens para saírem das instalações da unidade na Amadora, em pleno epicentro do terramoto revolucionário que varria o país (ao contrário do que acontecia com os homens dos Fuzileiros na Margem Sul, da Polícia Militar na Ajuda ou do RALIS em Sacavém, que à custa do contacto directo com os trabalhadores na rua se tornaram nos bastiões militares do movimento popular).

Havana, 31 de Julho de 1975. Otelo Saraiva de Carvalho, patética figurinha da família castrense lusa, pseudo-super-ultra-mega-hiper-revolucionário-pá, futuro-ex-futuro Che Guevara da Europa pá e grande-chefe do COPCON pá, empacota a sua trouxa para voltar a Lisboa, depois de umas belas passeatas na Isla Grande e umas charutadas com o Fidel Castro. Pá. Regressará a Portugal a tempo de salvar a pele ao seu amigo Jaime Neves e de fortalecer a posição militar da burguesia no campo da acesa luta de classes que a “pátria” vivia nesses dias.

Poderia começar assim o argumento de um filme tragi-cómico sobre um dos episódios mais anedóticos (mas mais importantes) de todo o chamado PREC. Militares mais ou menos conscientes da situação que se vivia no país e no seu quartel decidem limpar os Comandos da Amadora e abri-lo ao movimento revolucionário. O saneamento de Jaime Neves, amigalhaço de Otelo, seria então uma jogada perfeitamente legítima e totalmente justificada, apesar de alegadamente ser um golpe encoberto do PCP. A provável deslocação do regimento para o lado operário seria um grande passo para enfrentar a burguesia e a  pequena-burguesia, já fartas das brincadeiras do povo trabalhador que insistia em tomar nas mãos o seu destino.

Contudo, e apesar de as coisas terem estado bem encaminhadas, houve alguém que assim não quis. Eis Otelo em todo o seu esplendor de bobo da corte da reacção no exército português. Depois de ter lançado a bomba do “Jaiminho” e da perda de “confiança” dos “seus homens” à porta do quartel, volta a correr à Amadora no dia 4 Agosto, para presidir ao plenário da unidade , depois de ter sido avisado de que os militares já saneados não poderiam estar presentes na assembleia. Não se sabe muito bem o que se passou entretanto, mas a verdade é que, à semelhança de tantas outras assembleias militares da altura, os soldados – maioritariamente oficiais – afastados conseguiram estranhamente ganhar direito de presença (o mesmo se passou na decisiva assembleia de Tancos) e de voto e uso de palavra. No decorrer do plenário do regimento de Comandos, Otelo aprovou e apoiou a recondução do amigo Jaiminho na chefia da unidade.

Este momento marca em definitivo uma viragem no “processo”, com a reacção a fortalecer a sua posição no campo militar com uma das tropas de elite melhor treinadas em todo o Mundo e acabadinha de sair das matas de África, onde se especializou em espalhar cadáveres (inteiros ou aos pedaços) para caçar animais selvagens.

Não compreendo então, honestamente, a indignação dos trauliteiros da extrema-direita com o anúncio da promoção de Otelo ao posto de Coronel, especialmente depois da recente festarola feita à volta da promoção de Jaime Neves a General. Afinal, Jaime Neves deve totalmente a Otelo a sua continuidade (e quiçá a vida) na Amadora e até mesmo a sua promoção a Coronel um ano antes. E a burguesia portuguesa deve a estes dois ratos a sua sobrevivência.

Jaiminho e Otelo são duas das personagens mais sinistras e mais branqueadas e cujos nomes estão ligados ao período imediatamente seguinte ao 25 de Abril de 1974. Celebrados à direita e à “esquerda” respectivamente, Jaiminho e Otelo têm gozado do silenciamento que esse período da História colectiva portuguesa tem sofrido. Quer um quer outro são igualmente responsáveis pelo esmagamento do genuíno movimento revolucionário popular de 74/75.

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4 comentários

Filed under igor marques, nacional, prec

4 responses to “Jaiminho, pá.

  1. LGF Lizard

    O Jaiminho tramou-vos bem tramados. É por causa dele que não degenerámos numa qualquer república popular satélite de Moscovo e sim numa democracia. Aliás, as primeiras eleições livres, realizadas a 25/04/1975 demonstraram que o povo nada queria com os comunistas. O trabalho de Jaime Neves foi obrigar a malta da foice e do martelo a aceitar a derrota e acabar com a bandalheira do PREC. Mais ainda, é graças a ele que muitos dos PRECianos, que andavam a bater no peito a pedir a revolução, cresceram,tomaram juízo e foram pregar para outros lados. Um deles até chegou a líder da UE….

  2. Igor Marques

    Lizard, isso é uma forma um pouco ligeira de ver as coisas.
    Na verdade, Jaime Neves tem sido bastante sobre-valorizado pela sua acção no 25 de Novembro. Foi importante, claro, mas a figura preponderante desse dia foi o Ramalho Eanes. Curioso como a direita só se lembrou do Jaiminho depois do Eanes ter tido o apoio da “esquerda” (até do MRPP!) nas eleições contra o Soares Carneiro (em quem o Jaime Neves votou). E não se podem esquecer do Otelo, que chamou os páras para o terreno e depois foi para casa. Dormir, diz ele.
    Ainda em relação ao Chaimites, o homem é tudo menos “democrata”. Quando vejo a direita a glorificá-lo dá-me uma certa vontade de rir. Pelo menos agora começam a sair do armário.

    A questão da “república satélite de Moscovo” é uma falsa questão. Se é verdade que o PCP quis, até determinada altura, tentar tomar o poder em Portugal, também não é menos verdade que a URSS se estava a marimbar para isto. Julgo mesmo que o PCP se desinteressou pelos acontecimentos a partir do dia 17 Novembro, data da independência de Angola. É hoje claro que ao PCP nunca interessou o movimento de massas que se desenvolvia em Portugal. E tanto que não se interessou que nunca fez o que quer que fosse para que ele avançasse em direcção ao lugar que lhe é devido, ie, o poder. Pelo contrário, ao agir como mero satélite da URSS e com uma atitude centrista face à luta de classes, o PCP acabou por traír o movimento e vendê-lo à ditadura parlamentar ao preço da sua legalidade. A burguesia portuguesa nunca saberá reconhecer o serviço que o PCP lhe prestou.

    Os resultados eleitorais são outra falsa questão. Foi um erro crasso do MFA permitir a realização do escrutínio naquele momento específico, mas não há dúvidas de que o povo Português se expressou claramente pelo “Socialismo”, indo atrás da banha da cobra do PS e do PPD. Só o CDS não se considerava “Socialista” nessa campanha. E além disso, todos sabemos que em vastas áreas do Centro e do Norte do país as eleições foram tudo menos livres.

    Para terminar, a “bandalheira do PREC” foi o único momento na História portuguesa em que o povo foi realmente livre, ou pelo menos para lá caminhou de verdade. Acho que coisas como auto-gestão de empresas, ocupações de latifúndios, ocupações de casas devolutas e debate aceso em todas as áreas da sociedade, com os trabalhadores a olhar olhos nos olhos os patrões e toda a autoridade, não podem ser vistas como “bandalheira”. “Bandalheira” é a corrupção, a mentira, a hipocrisia e o compadrio que se instalou depois de enterrado o movimento revolucionário e popular da altura.

  3. Maria Olivia

    No primeiro parágrafo, 10.ª linha, onde se lê “Coronel Jaime Serra”, suponho que se queira dizer “Jaime Neves”.

    Respeito pelo operacional Jaime Serra.

    • Igor Marques

      Tem toda a razão Maria Olivia. É que quando me falam em Jaimes, neste contexto, lembro-me logo do Serra. E a minha animosidade com o Jaiminho Chaimites é tal que até lhe dou o nome de militantes do PCP.

      Já está corrigido. As minhas sinceras desculpas.

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