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Sobre o “Terrorismo”

Organizado pela UniPop, na Galeria Zé dos Bois.

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50 anos

Este não é um post fácil. Escrever sobre uma luta criminalizada e um movimento satanizado deve andar próximo daquilo que se pode chamar uma “maluqueira” ou até um “crime”. Mas a verdade é que não podia deixar passar esta oportunidade e assinalar uma data que me merece  toda a atenção: o 50º aniversário do movimento de libertação do País Basco Euskadi Ta Askatasuna (ETA).

Com o aparecimento da ETA, a luta pelo estabelecimento de um Estado Basco independente ganhou um fôlego novo. Até então resumia-se ao Nacionalismo Burguês, de cariz Democrata-Cristão (mais Cristão que Democrata) quando não Fascista. A base teórica era uma mistura de etnocentrismo com o chauvinismo Carlista, tudo muito Burguês e Aristocrático, com uma escassa base popular de apoio centrada nos proprietários agrícolas das zonas de Gipuzkoa e de Bizkaia. Em suma, falamos de um Nacionalismo reaccionário e estrategicamente autonomista, que levava as massas populares e trabalhadoras a alienar-se da legítima luta pelo estabelecimento de um Estado Basco.

Este Nacionalismo desembocaria, na sangrenta Guerra Civil de Espanha, em dois lados opostos: os Réquétés, fundamentalistas religiosos e defensores do Feudalismo e do Clericalismo, ao lado do Fascismo; e o Eusko Gudarostea, enquadrado pelo autonomista e Democrata-Cristão PNV mas onde foram integrados milhares de operários e camponeses revolucionários, desejosos de derrotar o Fascismo e conseguir a independência do País Basco. A frouxa liderança Burguesa deste exército levou-o à capitulação ante os Fascistas Italianos na Traição de Santoña.

A ETA surge assim no final dos anos 50 como a alternativa independentista, revolucionária e popular ao Nacionalismo Basco autonomista e Burguês, centrando as suas razões ideológicas no conceito Marxista-Leninista de auto-determinação e ainda  na  língua euskera (proibida pelo Fascismo) e no território onde ela é tradicionalmente falada, Euskal Herria  com as suas sete províncias (Bizkaia, Gipuzkoa, Lapurdi, Zuberoa, Araba, Nafarroa e Nafarroa Beherea), como fundamentos teóricos e históricos para a sua luta, reclamando justamente para si a herança dos gudariak da Guerra Civil, traídos pela Burguesia.

Seguindo essa linha ideológica e inspirando-se nas várias guerras e movimentos de libertação nacional da época, a ETA assumiu-se como a dianteira do movimento independentista Basco, lançado-se na luta armada contra o Estado de Madrid. Rapidamente ganhou o reconhecimento e o apoio de vastas camadas da população Basca, começando a mover-se em Euskal Herria com a mesma destreza e liberdade que os guerrilheiros do IRA na Irlanda do Norte ou da OLP na Palestina.

De lá para cá, a organização tem passado pelas mais complexas situações. Porém, parece claro que vive hoje o momento mais difícil da sua história. Ceifada de alguns dos seus cérebros, com grandes dificuldades financeiras e pouca capacidade para atrair novos activistas, o futuro da ETA é incerto e, com ele, o futuro de toda a luta pela independência e auto-determinação de Euskal Herria e do seu povo. Esta situação foi causada não pelo afastamento dos Bascos quanto à sua situação nacional e consequente  impopularidade da ETA e dos seus objectivos (como afirma Madrid). A causa é sim uma intensa repressão de Madrid contra os independentistas Bascos, ligados ou não à ETA.

As sucessivas campanhas repressivas do Estado de Madrid têm visado não somente a ETA mas  todo o movimento da esquerda albertzale, com repetidas prisões de activistas de várias organizações (amiúde seguidas de torturas e espancamentos), ilegalizações das mesmas (não há hoje um único partido legal próximo dos objectivos independentistas e revolucionários propostos para Euskal Herria), censura de várias orgãos de comunicação social e por aí fora. Pelo meio ficam ainda nas nossas memórias os GAL, assassinos a soldo do PSOE e nunca reprimidos convenientemente pelo Estado de Madrid.

Tratam-se de atitudes repressivas e de cariz fascizante em plena UE, que se diz “democrática”, e que passam ao lado da maioria das populações. A actual luta da ETA, patente no seu discurso, é precisamente contra estes métodos de repressão e pela convocação de um referendo em Euskal Herria sobre o futuro desta Nação. Referendo que Madrid rejeita.

Outro ponto importante da luta da ETA e de todos os independentistas Bascos prende-se com a situação dos prisioneiros políticos, colocados em prisões ao longo de todo o território do Estado Espanhol, a largas centenas de kilómetros dos seus familiares e bastas vezes em duvidosas condições no que refere à sua segurança.

Em Portugal a causa Basca está, como em toda a Europa, diabolizada. Afirmar simpatia pela luta dos Bascos e pela ETA é caso para insinuações de “ligações ao terrorismo” e consequente investigação policial, mesmo quando não há nem se pretendem ter as tais “ligações”, como é o caso. As corriqueiras notícias sobre “bases da ETA” em Portugal são apenas alarmes lançados pelo Estado contra aqueles que defendem a auto-determinação Basca. Uma das causas para este fenómeno de alheamento quanto à luta de Euskal Herria é a sociedade Portuguesa, formatada por compêndios e jornaleiros de duvidoso rigor historiográfico, que não reconhece as lutas independentistas Basca, Galega e Catalã como gémeas da luta Portuguesa em séculos passados contra o domínio de Madrid.  Mais, é hoje forçoso reconhecer que o Estado de Madrid (com as suas históricas pretensões expansionistas sobre a totalidade da Península Ibérica) é uma ameaça à independência da República Portuguesa. Assim é obrigação de todos os Portugueses tomar mais atenção a esta luta do povo Basco, independentemente da opinião que se tenha sobre a ETA.

Pela Independência e pelo Socialismo. Gora Euskal Herria askatuta!

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